8 de ago. de 2015

Os significados da vida


Os significados da vida


Que nossas perguntas nos levem cada vez mais longe na compreensão e na construção de sentidos para a vida de uma pessoa (Foto: Divulgação)
Qual é a verdade sobre um acontecimento que marcou a vida de uma pessoa? Sem entrar na discussão sobre a mentira, e partindo do pressuposto de que essa pessoa acredita naquilo que diz, gostaria de propor uma reflexão sobre os significados impressos nas histórias geralmente narradas.

Somos seres que, a fim de dar sentido às nossas experiências, geramos significados. As narrativas são construções que fazemos de nossas experiências. O vivido se torna uma realidade psíquica a partir do momento em que damos a ele um significado expresso por meio de palavras.

A maneira pela qual significamos as situações da vida resulta das circunstâncias que atravessamos desde a infância, da estrutura familiar e de como enfrentamos os desafios que a vida nos apresentou.

Somos, no final das contas, a resultante de tudo o que vivemos, mas não apenas dos fatos concretos, e sim de como os percebemos. A cada dia, novos significados se somam às redes já tecidas e, dessa forma, nos transformamos a cada nova experiência.

Trajetória evolutiva
É possível organizar a própria história com significados que levam a pessoa numa trajetória evolutiva, dando sentido e valor à vida de maneira construtiva. Por outro lado, é possível fazê-lo de maneira restritiva, criando significados para as experiências que limitam ou até impedem uma trajetória de vida satisfatória.

Os significados podem nos ser fornecidos por outrem, como o são pelos nossos pais ou cuidadores, em frases que podem nos acompanhar por toda a vida: “Você vale o que você sabe”. Ou  pela cultura: “Você vale o que você tem”. Ou ainda pelas nossas experiências, que são poderosos geradores de sentidos.

Ser humilhado, por exemplo, como assistimos frequentemente nas histórias de bullling que ocorrem nas escolas e mesmo no seio familiar, pode levar a um registro psíquico de “desvalor” de si mesmo e isso só será revertido com muito trabalho.

É interessante observar que às vezes as pessoas falam sobre “se conhecer” ou “se descobrir”, como se fôssemos prontos e acabados, como se houvesse algo em nós que é definitivo e essencial.

Eu me pergunto onde está essa coisa e se ela existe! O que vejo no desdobrar dos dias de conversas com as pessoas sobre suas vidas, concretas ou sonhadas, é o esforço de cada um para dar sentido à vida e às vivências de maneira a construir uma história coerente, compreensível e possível de ser levada na bagagem para o futuro.

História mal contada

Na maioria das vezes, o sofrimento está no peso que tem uma história mal contada a si mesmo. Se conhecer ou se descobrir, nesse sentido, poderia ser traduzido como ter a oportunidade de recontar a própria história e reconstruir seus sentidos de forma que caibam no peito e não fiquem derramando excessos ou espetando a alma com suas arestas.

Daí o valor do diálogo na vida das pessoas. O diálogo é o espaço da produção do sentido e é por meio dele que podemos costurar os retalhos de vida numa nova configuração.

O diálogo é uma poderosa experiência de se compartilhar esforços na tentativa de  formular uma atribuição de significado. Conversar consigo mesmo é uma modalidade importante, assim como as conversas com pessoas significativas.

Já o diálogo terapêutico tem a vantagem de buscar as peças para atribuir os significados nas experiências da própria pessoa, tornando a construção mais própria do indivíduo, sem muitas interferências das experiências de outros. Cabe ao terapeuta ser um facilitador neste trabalho de construção.

Conhecimento e verdade

A psicoterapia é um espaço de construção, desconstrução e reconstrução dialógica dos significados de forma a se formular narrativas que sejam libertadoras das amarras e do sofrimento do paciente.

Mas, então, não podemos conhecer a verdade sobre nós mesmos? O que, afinal de contas, diferencia conhecimento e verdade? A verdade está dada e a respeito dela não há que se fazerem perguntas, seja por estar demonstrada ou por prescindir da demonstração como é o caso da fé. Já o conhecimento nos exige perguntas e a cada resposta abre-se um novo leque de novos questionamentos.

As “verdades” de nossas vidas estão nas versões que somos capazes de lembrar ou extrair da percepção ou do entendimento que temos ou tivemos dos fatos ocorridos. E é exatamente essa a matéria-prima com a qual esculpimos a nossa história.

Muitas vezes não tivemos condições, por vários motivos, de compreender as situações da vida com clareza e trazemos dessas experiências entendimentos distorcidos que nos causam sofrimento. Se nossas perguntas gerarem reflexões suficientes para a construção de novas respostas, então atingimos nossa maior aspiração. Ou seja, que nossas perguntas nos levem cada vez mais longe na compreensão e na construção de sentidos para a vida de uma pessoa, assim como das coletividades, das culturas e da própria humanidade, que tantas perguntas sem respostas no impõe. Afinal, nossas histórias são sempre inacabadas.
Artigo publicado na coluna de Vania de Morais no site : www.domtotal.com

Vânia de Morais Psicóloga, mestre em Ciências da Saúde, doutora em Linguística, pesquisadora em cognição e linguagem. Professora em cursos de capacitação de psicoterapeutas e especialização em Terapias cognitivas na UFMG. 

17 de jan. de 2012


Sob o domínio do medo

Vivemos num mundo perigoso. Os perigos nos rondam todos os dias e por todos os lados. No trânsito, na vizinhança, nos relacionamentos. Quando ligamos a TV, imagens e notícias da violência invadem nossa casa e nos deixam assustados.

Portas trancadas, muros altos, alarmes e cercas elétricas, guaritas e câmeras de segurança, olhos bem abertos. Num único descuido, um invasor pode entrar em nossa casa, ferir nossos entes queridos, levar nossos bens ou tirar nossa vida.

Além dos perigos concretos, convivemos com ameaças à nossa vida emocional. Há o risco de sermos demitidos, trapaceados, de não ganharmos dinheiro o suficiente, de não sermos os melhores no exercício da profissão ou suficientemente bons para vencer a concorrência, manter o emprego, o status, o casamento, a família.

Na selva de pedra na qual vivemos, estamos todo o tempo nos protegendo de perigos reais e imaginários. Por isso podemos dizer que o medo adoece psiquicamente a sociedade, gerando ansiedade e insegurança.

Recursos terapêuticos
Como é que podemos ser saudáveis se vivemos numa sociedade enferma? Eis uma boa pergunta, e o que a torna boa é justamente a capacidade de evocar reflexões na tentativa de encontrar uma resposta.

A psicologia oferece recursos terapêuticos eficazes para o manejo da ansiedade. A medicina dispõe de fármacos, que são agentes fundamentais para o alívio do sofrimento. Ambas se tornam potentes aliadas na regulação psíquica e bioquímica necessária à reversão do estado de alerta que é patologicamente disparado em alguns de nós.

A questão a ser respondida diz respeito ao ponto de equilíbrio entre os perigos reais e os imaginários. O fato de vivermos num mundo que realmente comporta muitos riscos pode nos levar a tentar prever as futuras ameaças às quais estaremos expostos, a fim de nos protegermos.

A capacidade de planejamento e ação eficaz relacionada à antecipação do tempo é uma conquista evolutiva do cérebro humano. Ela foi extremamente importante na evolução da espécie, tornando-se uma das características que nos diferenciam dos outros animais.

No entanto, essa mesma capacidade pode se reverter numa patologia. Isso ocorre quando as previsões criam, de maneira crônica, um estado de alerta que nos mantém em constante vigilância, temendo e criando estratégias e comportamentos que visam evitar perigos imaginários. Quando isso ocorre, os custos físicos e emocionais são altíssimos (como abordados no artigo “A cultura da ansiedade”).  

Riscos imaginados
A solução saudável para o problema é nos protegermos, sim, dos perigos reais, mas sem nos deixar dominar pelo medo daqueles que são mero fruto da nossa imaginação. Para fazer isso, o primeiro desafio é sabermos diferenciar o real do imaginário. Na maioria das vezes, essa tarefa exige a ajuda de um psicoterapeuta.

Os ansiosos tendem a acreditar que seus pensamentos refletem a realidade e essa convicção é o que faz disparar as reações de ansiedade, que são reais, incômodas e frequentemente assustadoras para quem as experimenta. Contudo, tais reações são consequência do pensamento que prevê perigos, são a preparação do organismo para o enfrentamento dos riscos imaginados.

Depois de identificarmos as ameaças reais às quais uma pessoa está exposta, é preciso desenvolver as habilidades necessárias para enfrentá-las. Afinal, a capacidade de se proteger e de lidar com tais situações é um dos fatores geradores do sentimento de segurança. 

O mercado é competitivo? É importante desenvolvermos nossas melhores habilidades; O tempo é curto? Temos que aprender a nos organizar no tempo e no espaço; Os relacionamentos são instáveis? Temos que ter autonomia; Estamos sujeitos a imprevistos? É importante aprendermos a resolver problemas; As coisas mudam? Sejamos flexíveis; Não podemos resolver tudo? Então é inevitável contarmos com alguém; Podemos ser roubados? Há providências que podem prevenir esse risco.

Não somos máquinas
Quanto às ameaças imaginárias, elas são medos que estão ancorados nas experiências vitais e nas crenças, elementos constitutivos da personalidade. A ansiedade proveniente desses medos é tão intensa quanto aquela relacionada às situações reais. Na maioria dos casos torna-se necessária a ajuda profissional, para acessar e revisar esses registros de memória e nos libertarmos do medo.

O desafio de vivermos no nosso tempo é real e muito nos exige. O medo de não ser capaz de cumprir as muitas exigências profissionais, acadêmicas, culturais, sociais, pessoais leva muita gente – inclusive crianças e jovens – a desenvolver severos quadros de ansiedade.

É fundamental, para a saúde física e psíquica do indivíduo, que ele avalie as exigências do mundo externo. Em seguida, é necessário definir quais delas ele deseja ou precisa realmente atender, e quais são aquelas que não lhe dizem respeito.

Ao priorizar o que é importante e ao deixar de lado aquilo que não tem valor pessoal, eliminamos boa parte daquilo que constitui a fonte de temores. A combinação de nossas preferências, habilidades, limitações, possibilidades e valores é o que nos torna únicos. Ainda que nos causem sofrimento, os sentimentos nos fazem lembrar que somos humanos e não máquinas.

Vânia de Morais Psicóloga, mestre em Ciências da Saúde, doutoranda em Linguística, pesquisadora em cognição e linguagem. Professora em cursos de capacitação de psicoterapeutas e especialização em Terapias cognitivas na UFMG. 

10 de dez. de 2011

1 de dez. de 2011

A mensagem de Steve Jobs


Quando assisti numa rede social ao emocionante discurso de Steve Jobs para os formandos de Stanford em 2005, me pus a pensar no que faz alguém se sentir de fato uma pessoa realizada. Chamaram-me atenção, particularmente, suas falas sobre “seguir o coração” ou “a voz interior”. 


Coisa mais misteriosa essa! Sempre segui o meu coração, mas sou cautelosa ao recomendar aos outros que façam o mesmo. Afinal, muitas vezes fui parar em lugares estranhos e assustadores.

Quase sempre, ao seguir a voz interior, encontrei uma coisa diferente daquela que imaginei, embora na maioria das vezes melhor que a expectativa. Por incrível que pareça, nossa imaginação nem sonha com as coisas que a vida pode nos oferecer.

Sonhamos apenas com aquilo que já conhecemos. E quando ousamos pisar em terrenos desconhecidos, o que está por vir é devir. Imprevisível e incalculável é o mistério da vida.

Os riscos da caminhada
Conheço pessoas que preferem levar a vida pisando em solo firme e conhecido. Geralmente é o que lhes aconselha a voz interior. Talvez essa voz saiba que, ao pisar em falso num terreno pedregoso ou pantanoso, essas pessoas podem desabar.

A maioria precisa de segurança, sendo assombrada por imagens criadas na imaginação. Afinal, o medo é uma força protetora, especialmente quando o mundo de dentro já contém riscos suficientes. 

No entanto, há pessoas que se lançam destemidas no rumo apontado pelo coração. Essas colecionam cicatrizes na alma. Caíram, voaram, perderam o fôlego, tragaram, estiveram diante do abismo, do êxtase, do assombro e sobreviveram. Umas mais inteiras que outras, mas geralmente aprenderam a ter cautela.

A voz interior é alguma coisa em nós que, sem sabermos como, sabe algo de nossa integridade. Não das partes, mas do todo. Esse, que chamamos coração, nos salva de um ataque de nervos através de uma enxaqueca ou de uma lombalgia que nos obriga a ficar de cama, no escuro durante horas ou dias até que o ser se refaça do estresse, mantendo intacto o psiquismo, o outro “coração”, aquele que é ritmado pelos afetos.

O problema com a voz interior é que nem sempre a ouvimos verdadeiramente. Ela é facilmente falseada pela voz do desejo e do medo. Tanto um quanto o outro se dirigem a algo que é imediato e urgente.

Objetivos do coração
O coração, não. Ele “olha” para alguma coisa essencial, nos acena e nos aponta lá na frente um objetivo vital, algo que não vai passar depois da festa, dos prazeres, dos aplausos. E que também não vai passar só porque o medo impediu o próximo passo.

Jobs aponta a curiosidade e a intuição como elementos fundamentais que o guiaram em sua jornada em direção ao essencial, que para ele é o amor. A curiosidade me parece, de fato, uma das manifestações deste que chamamos coração e que talvez seja o que alguns estudiosos do psiquismo como Jung e Guidano chamam de “self” ou “si mesmo”.

Já a intuição pode ser entendida, na maioria das vezes, como um tipo de percepção ainda incipiente, fruto de informações fragmentadas e não articuladas pela consciência, parecendo assim advir de uma fonte desconhecida.

Geralmente, fazendo uma retrospectiva dos fatos relacionados ao evento, podemos identificar de onde vem a informação intuída. Concordo que esse seja outro instrumento fundamental, reunindo a experiência, a observação e a aprendizagem.

O amor, ingrediente essencial da receita, como um tesouro, deve ser descoberto dentro de si mesmo.  O depoimento de Jobs é um testemunho disso. Ao contrário do que a maioria quer acreditar, o amor não é algo dado, não está pronto.

Forma e sentido 
As pessoas constroem a própria identidade em um processo constante de reordenação que se dá através da interação com o mundo. Precisam percorrer na vida a jornada da autoconsciência para que sejam capazes de desvendar e construir o amor, seja por um trabalho, por uma causa ou por alguém. Do contrário, provavelmente sejam outros os sentimentos que habitam o peito, travestidos de amor.

A vida guiada pela voz interior pode parecer incompreensível, pode não ter a linearidade a que nossa razão está habituada. Pode ser uma coleção de fragmentos com mais ou menos cor, cada um com sua razão de existência, mas sem conexão uns com os outros, até que um dia se juntam numa forma que passa a fazer sentido.

É nesse momento que uma pessoa se sente realizada, quando algo que é inefável e intangível se faz real. Quando as peças se juntam como numa grande e misteriosa engrenagem que, de repente, ao encaixarmos uma peça mágica, começa o girar abrindo um portal para outro mundo.

Nessa hora, o mundo de dentro e o mundo de fora se juntam e num regozijo nos sentimos plenos. Isso pode durar horas, dias ou anos - não importa. Quem esteve nesse portal sabe que “os pontos se juntam em algum lugar” e isso faz tudo valer a pena. 

Vânia de Morais Psicóloga, mestre em Ciências da Saúde, doutoranda em Linguística, pesquisadora em cognição e linguagem. Professora em cursos de capacitação de psicoterapeutas e especialização em Terapias cognitivas na UFMG. 

18 de out. de 2011

Violência começa em casa


Violência começa em casa

O noticiário nos informa diariamente sobre atos de violência protagonizados por crianças e adolescentes. A palavra violência refere-se a qualquer comportamento humano que extrapole normas de conduta e cause danos físicos e/ou emocionais. Pode consistir em ações ou omissões, intencionais ou involuntárias, e classifica-se em negligência e abuso físico, sexual e emocional.

Sem desconsiderar fatores políticos e socioeconômicos envolvidos na questão, vamos focalizar o tema no contexto familiar, já que a violência que ocorre em casa está na base de todas as outras. Seu alvo mais vulnerável é a criança e o adolescente, em cujas personalidades ainda em formação tal experiência será integrada como fator determinante de traços, crenças e predisposições futuras.

Balanço divulgado pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, que recebe denúncias de violência contra crianças e adolescentes pelo serviço “disque 100”, revela que desde 2003 foram registradas 167 mil ocorrências em todo o país. Pesquisa realizada em agosto de 2011 pela Universidade Federal de São Carlos mostra que 70% das crianças envolvidas com bullyng – como agentes ou vítimas – sofrem castigos corporais no lar.

Um artigo publicado no New York Times em 22 de setembro de 2011 expõe o resultado de uma pesquisa sobre bullyng, mostrando que adolescentes envolvidos não se reconhecem como agressores nem vítimas. Em vez disso, classificam como “drama” qualquer manifestação nesse sentido, desqualificando o sofrimento envolvido de forma a permitir a continuidade daquilo que consideram inócuo ou engraçado.

A ponta do iceberg
As pesquisas demonstram apenas a ponta do iceberg. Vítimas de violência doméstica, assim como seus parentes e vizinhos, geralmente guardam segredo e o problema só vem à tona quando resulta em atendimento médico. Mesmo assim, lesões corporais que compreendem desde contusões, fraturas e queimaduras até rupturas de órgãos são frequentemente interpretadas nos serviços de saúde como acidentes.

A violência física e sexual vem sendo alvo de campanhas de conscientização ainda de forma tímida, se levar em conta a gravidade do problema. Entretanto, pouco se fala sobre abuso psicológico ou emocional, que tem o agravante de não deixar marcas visíveis. Esse tipo de violência ocorre sob a forma de ameaça, isolamento, indiferença, corrupção, exigências abusivas de desempenho, humilhação, desqualificação e rejeição.

A negligência é caracterizada pela omissão de cuidados e de atendimento às necessidades básicas da criança e do adolescente no que diz respeito à saúde, segurança, alimentação, educação, afeto e respeito.

Estudos neurocientíficos demonstram que toda forma de abuso, bem como o estresse que dela resulta, afeta seriamente o desenvolvimento anatômico e funcional do cérebro de crianças e adolescentes.

De pai para filho
Métodos educativos são transmitidos de geração a geração por meio de crenças nem sempre conscientes que compelem os pais ao uso dos métodos que lhes foram aplicados na infância. Pesquisas sobre a punição física constatam que a grande maioria dos adolescentes que apanham concorda que as crianças que fazem algo errado devem ser castigadas.

Crianças maltratadas tendem a se tornar adultos agressores ou propensos à vitimização. A experiência de maus-tratos mina a autoestima, a autonomia e a capacidade de se ver diante de outra pessoa em condição de igualdade. Estudos realizados em penitenciárias mostram que quase 100% dos criminosos sofreram algum tipo de violência na infância.

Como disse Madre Teresa de Calcutá, “no próprio lar começa a destruição da paz no mundo”. A tradição cultural que estimula os pais a castigarem física e emocionalmente os filhos propaga a cultura do poder à custa do abuso do mais fraco pelo mais forte e contribui para a banalização da violência.

Contudo, o papel da infância vem mudando gradualmente ao longo da história. De um lugar social nulo no Brasil colonial, vem se tornando cada vez mais socialmente relevante. Crianças e adolescentes são hoje reconhecidos como sujeitos de direito.

Podemos observar no discurso dos pais a representação de diversos momentos dessa transição para a cidadania em relação à punição corporal. Há aqueles que defendem que os pais têm plenos poderes para castigar os filhos. Há aqueles que buscam alternativas construtivas de educação. E existem outros que estabelecem limites para os castigos, como bater sem machucar ou humilhar. Depois do castigo, alguns se arrependem, reconhecendo o abuso.

Educação pelo exemplo
Devemos contribuir, por meio da informação, para que a transição cultural se dê mais rapidamente e com menos sofrimento. Medidas preventivas aos maus-tratos infantis devem alcançar setores responsáveis nas áreas jurídica, educacional, de assistência social e saúde pública.

É importante treinar os profissionais de saúde e educação para a detecção de sinais de violência, bem como desenvolver programas de conscientização de pais e familiares sobre as suas consequências. Graças à consciência e ao domínio da linguagem é possível encontrar formas inteligentes de alcançar os objetivos e devemos ensinar esses meios aos nossos filhos.

Podemos ensiná-los a reclamar quando insatisfeitos, a reivindicar sem desrespeitar os direitos alheios, a identificar e expressar sentimentos, a resolver problemas e reconhecer seus erros, a se desculpar, a tolerar a frustração, a conter impulsos, a se solidarizar, a respeitar limites e seguir regras, a construir relacionamentos saudáveis.

Na tarefa de educar, são recursos necessários aos pais a coerência na palavra e na ação, a adoção de valores sólidos, de responsabilidade, consistência, capacidade de cuidar, de amar, dialogar, ter tempo para educar, vontade de aprender e de ser uma pessoa sempre melhor a fim de dar o exemplo e se tornar um bom modelo para o desenvolvimento dos filhos. 

Vânia de Morais Psicóloga, mestre em Ciências da Saúde, doutoranda em Linguística, pesquisadora em cognição e linguagem. Professora em cursos de capacitação de psicoterapeutas e especialização em Terapias cognitivas na UFMG. 


Publicado no site Dom Total: 
http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=2255

12 de out. de 2011

Educar e punir são coisas diferentes


Educar e punir são coisas diferentes

A cena se repete em famílias de todas as classes e de diferentes níveis educacionais. Diante do comportamento de oposição do filho, os pais recorrem à punição física como “método educativo”. Imediatamente, a criança cessa o comportamento indesejado por temor aos adultos, que demonstram ter mais força física que ela e não por uma aprendizagem quanto aos significados (pessoais, sócias, afetivos) embutidos em tal comportamento. Será que podemos chamar a isso de educação?

Os defensores da palmada argumentam que, quando a criança desafia a autoridade dos pais e testa os limites, a demonstração de força se faz necessária para que entenda que é mais fraca e, assim, se submeta. Especialmente se ela não obedece a uma ordem que foi repetida.

Os castigos corporais vão da palmada ao espancamento, passando pelos abusos psicológicos infelizmente comuns nas relações familiares, como ameaças de abandono, castigo, rejeição, humilhação, indiferença e exigência exagerada de rendimento intelectual, esportivo ou outros tão comuns na sociedade atual. Muitas vezes a criança responde à agressão dizendo que “não doeu” ou se recusando a admitir o sofrimento, o que costuma aumentar a ira dos pais e a severidade da punição.

A demonstração de força dos adultos é obviamente desnecessária. É claro que a criança percebe quem é o mais forte, pelo menos fisicamente. Além disso, mesmo a palmada, considerada inofensiva por muitos pais, é uma agressão à integridade física e psíquica do filho, pois nesse embate ele estará sempre em desvantagem.

Construção interior

A criança é uma pessoa em formação, estando em franco processo de construção de um mundo interno composto de normas, regras, valores, gostos e desgostos. Suas experiências são o meio pelo qual aprende e apreende o mundo ao seu redor. As experiências são matéria-prima de realização do ser humano que vai se construindo.

Ela não está testando os pais quando os desafia. Está testando a si mesma e experimentando os próprios limites, aprendendo sobre si e sobre os outros. Está construindo regras que estarão na base de seus relacionamentos futuros. Cabe aos adultos responsáveis pela educação da criança dar-lhe os parâmetros que demarcam os limites entre ela e os outros, o que é permitido, o que é indevido, o que é proibido. Isso, sim, é educar.

Gritar, ameaçar e bater na criança não a educa e sim comunica ou ensina que a força física é o instrumento para se impor a realização de um desejo. Bater é uma forma de coação, não de educação. Coagir é usar a força para conseguir o que se quer. Se bater educasse, a palmatória ainda seria usada na escola e os pais concordariam que os professores castigassem seus filhos ou que vizinhos e amigos os corrigissem com “uns tapas”, toda vez que se comportassem de forma inadequada fora de casa.

Esse comportamento ambíguo não causa estranhamento, porque o filho ainda é visto pela sociedade como propriedade dos pais. Se alguém comete o desatino de bater no filho de outro, certamente será processado e punido pela lei. Afinal, bater numa criança é crime. Mas os pais continuam batendo nos filhos! Reconhecem que esse é um ato de covardia, se ocorre fora de casa, mas não o consideram como tal quando se dá entre as paredes do lar.

Violência gera violência

Será que um pai ou mãe acredita mesmo que está fazendo bem ao filho quando lhe castiga com palmadas e humilhações? Ou simplesmente não conhece outros recursos educativos? A maioria dos adultos está estressada e impaciente demais para cumprir com a função inevitável da paternidade/maternidade. As pessoas querem obediência e usam a força física como recurso para obtê-la. E o pior é que a criança aprende esse artifício e passa fazer uso dele.

As escolas estão infestadas de comportamentos violentos. Vivemos numa sociedade na qual as pessoas sofrem crescentemente com as psicopatologias do medo: transtornos de ansiedade, transtornos obsessivos, transtorno do pânico e fobias, entre outras.

Frequentemente as crianças que não usam de comportamentos agressivos, provavelmente porque não aprenderam isso em casa, apanham na escola e não sabem se defender. Os pais que têm essa consciência se vêm diante de um grande desafio: ensinar ao filho maneiras de se proteger da violência que o rodeia sem incentivá-lo a adotar comportamentos agressivos.

Os maus tratos às crianças, prática comum ao longo de séculos, vem sendo alvo de atenção dos profissionais de saúde e educação nas últimas décadas. Os educadores, profissionais de saúde e demais responsáveis pela difusão da informação e da formação de indivíduos na nossa cultura têm papel fundamental na proteção da criança e na formação de uma nova mentalidade relativa à educação e à punição no seio da família.

Só a lei não basta

Pesquisas científicas mostram que pais que acreditam na punição física como método educativo batem nos filhos com muita frequência, especialmente quando estão sob estresse. Também tem sido demonstrado que abusos físicos e emocionais cometidos com atitudes punitivas estão associados a problemas de conduta e de saúde mental da criança, como ansiedade, depressão, isolamento social, abuso de drogas e suicídio.

A instituição de uma lei que proíbe o castigo físico – embora este tenha sido um passo fundamental – não tem sido suficiente. Faz-se necessário, portanto, conscientizar os profissionais de saúde e educação para que cumpram sua obrigação legal de notificar os maus-tratos a crianças e adolescentes.

Mais importante ainda, é preciso levar informações às famílias sobre estratégias educativas apropriadas, baseadas em princípios éticos, no respeito, na colaboração e, principalmente, no amor. Assim estaremos contribuindo para uma sociedade mais saudável, formada por pessoas menos violentas, que não sofram de tantos medos e possam viver e conviver em paz.

Vânia de Morais Psicóloga, mestre em Ciências da Saúde, doutoranda em Linguística, pesquisadora em cognição e linguagem. Professora em cursos de capacitação de psicoterapeutas e especialização em Terapias cognitivas na UFMG. 

Publicado no site DOM TOTAL: 
http://www.domtotal.com/colunas/detalhes.php?artId=2221